Hoje mais um colega aposentou-se no meu local de trabalho, no meu setor. Luiz Alfredo, um grande profissional, um grande técnico, e um grande amigo. Companheiro de almoço, de todos os dias, nos últimos anos. Lulu, como todos o chamam carinhosamente, é uma pessoa incrível. Foi professor de ciências nas escolas de ensino fundamental e secundário. Mora em Guaíba, uma cidade que fica a 27 Km de Porto Alegre, na outra margem do Rio Guaíba, junto com sua esposa, e muito próximo dos filhos e netos. Nesta data, completou 35 anos de contribuição à Previdência e 30 anos de serviços prestados à mesma empresa.
Nossa amizade sempre foi muito grande. Eu sempre adorei a hora do almoço, pois além de ser uma hora sagrada, nossos papos eram profundos. Falávamos sobre inovações da tecnologia, fotografia, viagens, coisas da vida, filosofia e comportamento humano. Nunca faltava assunto, e poderíamos ficar dias conversando sem parar. A troca de idéias sempre foi muito intensa, e como ele escreveu em sua mensagem de despedida, que eu, talvez, não fizesse idéia o quanto os nossos papos contribuiram para sua vida, sendo que eu respondi a ele a mesma coisa.
A aposentadoria é uma nova etapa da vida de uma pessoa, uma mudança tão radical, que deve ser planejada para que a pessoa não sinta tanto os reflexos dessa mudança. Eu comparo com um preso que ganha a liberdade, e se não souber o que fazer com ela, pira. Mas Lulu sabe o que fazer. Ele disse-me que agora vai ter o tempo para fazer suas coisas, coisa que nunca teve, que vai poder ver os netos crescerem, já que os filhos ele não viu, pois estava sempre viajando a trabalho, que pretende viajar muito, e fotografar tudo o que de mais lindo esse mundo pode mostrar. Conseguir aposentar-se sem precisar trabalhar para complementar a aposentadoria, hoje no Brasil, é uma dádiva. E isso só é possível, porque contribuímos para um plano de previdência privada, que permite ao funcionário receber seu sálario integral, com se estivesse trabalhando. Claro que nem tudo é um mar de rosas, pois essa renda vai sendo corroída no decorrer dos anos, pois os aumentos dos aposentados não são os mesmos do pessoal que está na ativa. Mas com o dinhero que ele vai levar por ocasião da aposentadoria, se bem administrado, e sei que ele vai administrar bem, dá para levar uma vida confortável até o fim.
Mesmo nesses vinte e dois anos trabalhando na mesma empresa, vendo muitos colegas aposentarem-se, eu não penso em aposentadoria. Faltam muitos anos para mim, muitas leis ainda podem surgir dificultando a aposentadoria, principalmente, avançando a idade mínima para aposentar-se, e pensar em aposentadoria, agora, seria esperar, simplesmente, a vida passar. Tenho muito o que crescer profissionalmente, tenho muito tempo de trabalho pela frente para isso, e gosto do que faço, mas ver colegas mais velhos atingirem a liberdade é extremamente gratificante.
Ao mesmo tempo que feliz pelo Lulu por atingir sua liberdade, fiquei triste pela perda do companheiro de trabalho e amigo. A vida tem ensinado-me que as pessoas aproximam-se por vínculos e afinidades. Os vínculos podem ser o local de trabalho, ser vizinho, colegas de colégio ou faculdade, colegas de cursos de especialização de 2 anos, entre outros. Às vezes, um pequeno curso com as mesmas afinidades, podem juntar as pessoas de uma forma explendorosa. Mas aprendi que, mesmo com muitas afinidades, a quebra do vínculo acaba por afastar as pessoas. Assim acontece com aquele vizinho que tornou-se um grande amigo, mas muda de prédio, entre os colegas de colégio, faculdade, ou quaisquer encontros que criam vínculos entre as pessoas. Não me iludo mais que as pessoas mantém a mesma afinidade quando os vínculos se quebram, apesar de fantasiarmos sempre que nada mudará. É natural, e faz parte da vida, e se você pensar bem, já deve ter experimentado esse tipo de quebra de relação. Senti isso, recentemente, quando participei de uma festa de 24 anos de formatura do curso de Engenharia Civil. Formei-me novinho. Com apenas 23 anos de idade, eu e meus colegas já éramos engenheiros. Hoje o pessoal está se formando mais tarde, e muitos estão fazendo seu primero curso de graduação com 30 anos de idade. Mas, enfim, foi triste sentir na festa de comemoração de aniversário de formatura a quebra da afinidade. Colegas, que eram muito amigos, só falavam das coisas do passado, os caminhos seguidos, mas não tinham mais presente juntos, sequer um passado recente. A vida é assim mesmo, mudamos, nos renovamos, nossos relacionamentos se renovam, fazemos novos amigos, novos relacionamentos, novos interesses, novos amores, novas paixões.
Sabendo disso, no último dia de trabalho do meu colega e amigo, trocamos telefones, endereços, e e-mails, mas eu sabia que eram nossos últimos momentos de extrema amizade e afinidade. Na despedida, no final do expediente, dei-lhe um abraço apertado, agradeci-lhe por ter tido o privilégio do seu convívio, disse-lhe o quanto ele havia sido um grande colega e amigo, o quanto ele tinha contribuído na minha vida, e disse-lhe, também, que eu havia passado na vida dele com a vontade de ficar. Alguém pode dizer que não é assim, que pode ser diferente, mas a vida tem me mostrado que é assim. É um sentimento diferente, não posso dizer que é triste, nem que é alegre, mas é diferente, pois a vida tem me mostrado como o tempo e a distância acabam com as afinidades de grandes amigos, nem que seja aos poucos. Sei que entre eu e o Lulu vai ser assim, pois apesar de muitas afinidades, o vínculo do trabalho era quem nos aproximava todos os dias.
Lulu, que Deus te abençoe e te proteja sempre, que você seja sempre muito feliz, com muita saúde, no convívio da tua esposa, por quem eu sei que você é apaixonado, de teus filhos, netos, e dos novos amigos que você conquistará nessa nova etapa da vida. Foi um privilégio ter te conhecido, ter convivido contigo durante todos esses anos, e pela contribuição e os momentos felizes que você proporcionou na minha vida.
Para finalizar, trancrevo abaixo um texto do grande poeta gaúcho, Mario Quintana, a qual o Lulu finalizou sua mensagem despedida para os seus colegas e amigos, dando-nos a sua última mensagem de sabedoria, enquanto colega de trabalho:
O tempo

"A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo:
Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a única que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais."
Mario Quintana (por Lulu).